'' Já tô indo , mãe! '' Gritei do meu quarto.
'' Corre logo filha. O seu teste já vai começar! '' Ouvi minha mãe falar lá de baixo.
Eu estava indo fazer meu teste para o vestibular, que infelizmente só tinha em lugares longes daqui. Eu precisaria pensar, não podia colocar tudo a perder. De repente alguém bateu na minha varanda. Ah, e eu ainda tenho dúvida de quem é ?
'' Oi! '' Falei, com um caixote na mão.
'' Nossa! Pra quê tanta pressa?'' Ele falou.
Corri, dei um abraço beijei sua bochecha e fui pegar minha bolsa.
'' Depois eu te conto, Ruan. Eu tenho meia hora pra falar com o Gui!''
'' Como assim? E eu? Eu te trouxe um presente.''
'' Presente?'' Perguntei.
'' É... Você faz dezoito anos daqui a...''
'' Uma semana! '' Falei abrindo um sorriso.
'' Olha pra ela, vai virar maior de idade. Mais ainda é minha amiga criançona .''
'' Hahaha'' Falei, ironicamente.
'' Só por que você já fez...'' Continuei.
'' Sou um mês mais velho. E o Guilherme é três!'' Falou Ruan.
'' È claro que eu sei! Eu adoro fazer aniversário nas férias... Ah, Julho...Férias, férias férias.
'' È, mas depois das férias a senhorita vai estudar.''
'' Que que é ? Mãe dois! '' Falei sorrindo.
'' Nada disso. È brincadeira, menina! Vai ver seu presente ou não?''
'' Onde está?'' Perguntei.
'' Na varanda.''
'' Mas você veio da varanda!'' Falei.
'' E fechei as cortinas... Como você pode ver! ''
'' Hum... Tá. Mas você tem que ser rápido, eu não vejo o Gui há quase um mês e só tenho esse momento com ele...''
'' Esse momento?'' Ouvi uma voz que criava música em meus ouvidos, e já imaginara quem seria.
'' Gui! '' Falei, correndo em sua direção, o enchendo de beijos.
'' Bler Santiago! '' Ouvi uma voz gritando lá de baixo.
'' Ih, me lasquei.'' Falei.
'' Calma...'' Falou Guilherme, passando a mão em meu rosto.
'' Você está diferente.'' O olhei com mais clareza... Ele estava com os olhos mais azuis, os cabelos mais cortados... E mais moreno.
'' Você está mais bonita do que é, se é que isso é possível.''
Sorri e beijei ele novamente.
'' E você também.'' Continuei.
'' Bler! '' Falou minha mãe, abrindo a porta.
'' Ah, tudo bem. Pensei que fosse viajar meia hora de carro para você ver o Guilherme.'' Ela disse , entrando no quarto.
'' Mãe! '' Falei, um pouco envergonhada.
'' Como vai, campeão?'' Ela perguntou.
'' Muito bem, senhora.'' Ele respondeu, com a maior cavalheirice. Notei que o Ruan não estava no quarto.
'' Ruan?'' Perguntei.
'' Este é o seu presente.'' Ele veio da varanda, e me trouxe uma caixa meio grande.
'' Nossa, que presente é esse?'' Perguntei curiosa, e logo abri.
Não acreditei no que vi. Pedi isso para a minha mãe várias vezes, mas não vendia na cidade. Um porta retrato em forma de coração, com o nome '' Bler e Gui'' em alto relevo brilhando, com um martelo para '' Caso dê saudade, quebre'' Do jeito que eu tinha pedido! Eu fiquei parada olhando por uns vinte segundos. O Guilherme veio olhar e pareceu ficar impressionado.
'' È... Não tinha com Glitter como você pediu, então eu comprei e eu mesmo coloquei.'' Ele falou, meio envergonhado.
'' Eu não acredito! '' Eu falei, pulando em Ruan, que o desequilibrou e caiu na cadeira. Nós caímos e rimos por uns instantes.
'' Eu te amo! '' Falei, ainda abraçando ele.
'' Eu sei, minha amiga! '' Ele falou, rindo.
'' Crianças! '' Falou minha mãe rindo, saindo do quarto.
'' Onde você conseguiu isso?'' Falou Guilherme , ainda impressionado.
'' Ah, na cidade vizinha daqui! Tinha uma oficina e eu mandei fazer! ''
'' Você não existe! '' Falei, atrapalhando seu cabelo. Guilherme estendeu as mãos para eu me levantar.
'' Menina, eu conheci um garoto lá na festa e...'' Falou Gabi entrando no quarto, nos vendo , ficou meia envergonhada pelo que disse e riu quando nos viu. Dá pra imaginar? O Ruan caído da cadeira, eu segurando um retrato e Guilherme olhando impressionado. Que cena.
'' Ai gente, desculpa! Sempre quando eu entro tem gente aqui, colinhas unidas, jamais serão vencidas! Por falar nisso, pronta para o teste?''
'' O teste! '' Me lembrei, olhando no relógio.
'' Falta meia hora.'' Disse, um pouco aliviada.
'' Bler , Bler, sempre atrapalhada... Por falar nisso, não foi só eu que adiantei seus presentes. Esses dois tão por fora...'' Falou Gabi. Olhei em direção á Guilherme e Ruan, eles franziram as sobrancelhas .
Ela tirou uma enorme caixa embalada em um papel super lindo brilhante, com um lacinho daqueles de novela.
'' Ai, que lindo! '' Eu falei, contemplando a caixa.
'' Você nem viu o presente ainda e já está achando lindo! '' Falou Guilherme, meio desapontado. Ruan também.
'' Ah, vocês não sabem nada sobre garotas. Eu sei do que a Bler realmente gosta... Abre! '' Falou Gabi.
'' História, adorei o de vocês.'' Eu disse pra Guilherme e Ruan.
'' Ei, Bler! Eu ainda não dei o seu presente.'' Disse Guilherme.
'' Você já é um presente! '' Eu disse, e ele sorriu olhando pra baixo.
Quando eu abri tinha um perfume Channel que era SUPER caro. Onde a Gabi arrumou aquilo?
'' Nossa! '' Falei , olhando o perfume.
'' Gostou?'' Disse Gabi.
'' Se eu gostei? Eu amei! Obrigada, Gabi! '' Falei, abraçando ela com força. Eu amo meus amigos!
'' Vinte minutos, para começar, Bler. Você tem dez minutos! '' Ela berrou lá de baixo para que eu ouvisse.
'' Tá, mãe! '' Berrei de volta.
'' Boa sorte para minha campeã.'' Falou Gabi, me dando um abraço. De repente senti um frio na barriga!
Eu ia fazer um teste de advogacia , porém não gostava muito. Foi ordem da minha mãe . Ainda estou pensando ... Noque eu realmente vou fazer. Bom, deixei para lá meus devaneios e voltei ao mundo real.
'' Bom.. Eu...'' Eu falei, meio que envergonhada.
'' Eu não necessito de tanta sorte por que eu nem...'' Gabi não deixou eu continuar, e me interrompeu.
'' Por que você nem precisa! Eu sei, eu sei!'' Ela falou, estava mais empolgada do que eu.
Guilherme estava de braços cruzados.. Hum? Por que? Ele voltou meio... Tristonho e sério.
'' Você tá bem, lindo?'' Perguntei, chegando mais perto dele. Ele olhou para baixo e fez uma cara triste.
'' Meu pai morreu.'' Ele falou, soutando uma lágrima.
'' Ah meu deus! '' Eu falei meio que alto, minha mãe veio correndo ver.
Olhei para a Gabi e o Ruan, eles estavam pálidos. Eu adorava o pai dele, ele era feliz, legal, e sempre nos divertia. Ele dizia que queria ser meu sogro, e sempre nos elogiava. Não acredito que ele morreu.
'' Guilherme, por que você não contou?'' Falei, meio chorosa.
Ele não respondeu. Escondi as lágrimas e prossegui.
'' Morreu de quê?'' Sussurrei.
'' Acidente de carro. '' Ele falou, baixinho.
De repente me lembrei da cena, e meu rosto ficou branco.
'' Foi atropelado enquanto atravessava, um homem bêbado estava apostando corrida com um carro, oque é totalmente ilegal e matou meu pai..''
Ele falou em palavras tão fortes, que eu comecei a tremer. Eu considerava ele um segundo pai.
Da cena, que o Guilherme me empurrava e ele era atropelado... Da cicatriz que ainda tinha em suas costas.
'' Eu iria terminar feito ele.'' Ele falou, com uma voz estranha.
'' Tanta gente da minha família morreu em acidentes envolvendo carros...''
Olhei para aquele rostinho angelical, que chorava muito, ele começou a soluçar.
'' Meu pai... A metade da minha vida.''
Eu o abracei. Também estava chorando.
'' Ô Gui...'' Não conseguia dizer mais nada, apenas alisei seu cabelo.
'' Eu não quis contar a você por conta do teste.''
'' O teste?'' Falou minha mãe, olhando na hora.
'' Ò meu Deus! Você tá atrasada! Corre Bler, temos que ir! Desculpa Guilherme, na volta a gente fala com você! Desculpa, fica aí toma um cafézinho que eu já volto , e a Bler daqui a uma hora . A Gabi e o Ruan vão ficar aí!''
'' Droga.'' Sussurrei.
'' Eu não vou.'' Eu disse, e o Guilherme fez uma cara de '' Você não vai por mim ?''
'' Não, Bler. Eu vou ficar bem. Preciso muito de você agora, do seu carinho, sua ajuda, seu beijo. Mais eu quero muito mais que você faça um ótimo teste, pois posso ver você todos os dias.''
'' Não pode! Você tá morando longe por conta do vestibular! '' Falei.
'' Pois é... Quando meu pai morreu, aquele apartamento grandão ficou pra mim, e eu vendi. A ação do carro dele ficou para mim, e agora eu tenho um carro, aleluia. '' Ele falou, com uma voz meia desapontada.
'' Eu voltei para o Flat.'' ele continuou.
Dei um sorriso amarelo, pois eu estava feliz. Mais ao mesmo tempo triste. Dei um último beijo e saí correndo. Dei tchau para a Gabi e o Ruan que estavam tão pálidos ( eles conheciam muito o pai do Gui)
que não falaram nada. Eu estava praticamente em choque, só que tentando me conter e tentar mostrar para o
Guilherme que estava bem. Apesar de ser mentira.
Fiz o teste correndo, que nem pensei direito. Nem liguei para minha mãe, fui correndo mesmo para casa, pois é uns cinco minutos dali. Cheguei em casa com o coração pulando, vi que eles não estavam na sala e corri para o quarto.
'' Filha, você já chegou?'' Falou minha mãe, da cozinha.
'' Sim, mãe! '' Subi a escada correndo.
Abri a porta e lá estavam eles. Guilherme estava conversando algo, o rosto meio vermelho, mais sem sinal de choro. Eles não tinham me visto, eu abri só um pouco. Eles estavam conversando algo a respeito de mim. E eu tinha que ouvir.
'' Bem, tem certeza disso?'' Gabi disse, com o rosto um pouco confuso.
'' Com certeza.'' Disse Guilherme.
'' Olha, talvez a Bler não goste muito. Mais, tudo bem. È uma decisão sua, afinal?''
Decisão? Que decisão? Pensei.
'' Eu saí do vestibular para ficar aqui com ela. Mais, não tenho dinheiro para pagar o Flat, e acho que só vou passar as férias e ir para o intercâmbio de londres mesmo.'' Disse Guilherme.
'' Oquê?!'' Pensei alto, demais, que eles ouviram. Guilherme saiu correndo para falar comigo.
'' Pera, Bler! Não é isso!''
Fiquei parada, esperando ele explicar oque era.
'' Tà, é isso.'' Ele falou.
'' Eu não acredito, você arruinou sua vida por mim? Você largou seu vestibular para ficar aqui? Vendeu a casa bombástica, e não tem mais dinheiro? Você não queria ficar numa cidade diferente da minha, dava pra a gente se ver, Guilherme! E agora? País? Você vai para outro País?'
Eu acho que eu peguei pesado. Ele perdeu o pai, perdeu o lugar onde morar. Talvez o intercâmbio fosse uma coisa nova e melhor para ele conseguir empregos. De repente ele começou a ... Chorar... Eu nunca vi ele chorando, quer dizer, só quando o pai dele morreu.. Mas a expressão dele era tão... Triste.
'' Olha, eu... Eu não queria, tá?''
Fiquei o olhando.
'' Eu te amo muito, mas, minha mãe que mora no Rio conseguiu um intercâmbio para mim, já que eu sei muito o inglês. Eu praticamente falo graças ao RPG, decorando seriados... Bem, isso pode me melhorar. E se eu conseguir, vou ganhar um prêmio, pois depois vou fazer uma prova de intercâmbio pra provar que eu ''aprendi inglês fluente '' E posso ganhar um prêmio. È minha chance, Bler. Não entende?''
Eu fiquei calada.
'' Tudo bem. Você não me entende, não vou forçá-la a nada! '' Ele falou, saindo.
'' Espera! '' Eu falei correndo.
Ele se calou.
'' Vá. '' Eu disse, meio triste.
'' Eu não quero me separar de você. Mas é isso, ou o intercâmbio, ou , eu vou morar no Rio de Janeiro ...''
'' Não! Vá no intercâmbio... Promete que volta?''
Ele sorriu.
'' Claro.''
E dei-lhe um beijo.
'' Você vai quando?''
'' Daqui a uma semana.'' Ele disse.
'' Oque? Já?''
'' È...'' Ele disse meio preocupado.
'' Gui..'' Passei a mão no seu rosto branco e macio.
'' Eu não vou te esquecer. Eu volto. Calma...''
Dei um abraço nele, e soltei várias lágrimas...
'' Filha, já que ele vai também, é justo eu dizer que também lhe inscrevi . ''
'' O que?'' Eu perguntei, meia confusa. Guilherme franziu as sobrancelhas.
'' O destino quer vocês juntos mesmo, não é ?'' Minha mãe brincou.
'' Bler, esse é seu presente de aniversário. Te inscrevi no intercâmbio para aprender inglês fluente, de Londres... Já dei seu currículo para o diretor, ele aceitou. Na verdade você foi uma das melhores, ficou em segundo lugar, quem ficou em primeiro foi um tal de Guilherme, que eu acho que é você hein Gui?''
'' Foi eu sim.'' Ele disse, todo animado.
'' Nossa! Eu fiquei em segundo? Não achei que eu fosse tão boa assim. E parabéns, viciado em jogos e seriados!'' Eu disse, brincando.
'' Te amo sabia?'' Ele disse, feliz.
'' Eu não acredito que vamos viajar juntos!'' Eu disse, toda feliz.
'' Não vamos..'' Ele disse, brincando.
'' Eu escolhi os Estados Unidos..'' Ele disse, meio triste.
'' Ah! '' Eu falei, voltando a ficar chateada. Ele pegou minha mão.
'' Vai ser uma boa experiência... Para mim e para você!''
'' Tá! '' Eu disse, toda feliz.
E o Beijei.
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